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Mudar: A Arte do Desapego

O tema do desapego está intimamente relacionado à impermanência que a vida nos apresenta. Segundo o filósofo grego pré-socrático Heráclito (535aC – 475aC) é impossível banhar-se no mesmo rio duas vezes, pois, assim como o rio muda, o banhista também muda. Nessa ótica, tudo o que existe se encontra num fluxo permanente, numa transformação constante que impede que algo permaneça idêntico a si mesmo.


O corpo humano mostra-nos isso de forma bastante evidente. É impossível negar o seu desenvolvimento ao longo da vida e até mesmo após a morte, quando passa a ser a matéria de outros corpos, que também continuarão se transformando. De maneira semelhante, muda também o nosso psiquismo e tudo aquilo que está à nossa volta.


O óbvio dessas ideias poderia originar uma aceitação mais fácil das mudanças por parte das pessoas. Mas o que se observa com frequência é que, para cada força que empurra para a transformação e o desapego, existe a força contrária que resiste e busca o apego. A madrasta da Branca de Neve encontra-se presente em cada um de nós, acalentando a ideia de que é possível controlar o fluxo da vida e permanecermos em algum ponto de nossa trajetória, estáticos.


Aceitar a mudança requer vivenciar o luto; desde o pequeno luto diário de deixar o sono de manhã cedo e partir para um novo dia, até os lutos mais profundos e duradouros, decorrentes do falecimento de pessoas amadas, do próprio adoecimento ou de situações catastróficas (inundações, desabamentos, terremotos, etc.). A assimilação do luto requer o desapego; para que algo possa nascer é necessário desapegar-se do antigo. Esse antigo permanecerá em nós, mas de cara nova: transformado e mesclado com o novo.


Na vida intrauterina o ser humano possui tudo aquilo que lhe é necessário. Essa fase precisa ter um fim para que a vida continue. No momento em que alguém nasce, também nasce a mãe desse alguém e morre o feto na barriga, assim como morre a mãe desse feto. Um novo ciclo tem início e a cada dia novas mortes e nascimentos acontecerão; a morte do bebê que só faz mamar dará lugar ao nascimento daquele que toma a sopinha; a morte daquele que precisa ser carregado dará lugar ao nascimento daquele que caminha com as próprias pernas e, assim, num movimento sem fim, de mortes e nascimentos, com as respectivas perdas e ganhos que cada situação oferece.


Então, como seria, se no momento em que a barriga se tornou “apertada e sufocante”, tivéssemos resistido à mudança, sem querer desapegar? Provavelmente não estaríamos vivos; você para ler estas linhas nem eu para escrevê-las. Mas é exatamente isso que tantas e tantas vezes as pessoas procuram fazer ao longo de suas vidas. Algumas mais do que outras. Há uma eterna tentativa de permanecer no mesmo lugar, mesmo que esse lugar já seja o lugar do “ruim conhecido”, do “meio intrauterino” que não tem como dar conta desse novo ser no qual nos transformamos. Esses são os momentos de impasse. É neles que as pessoas se encontram quando percebem que a mudança e o necessário desapego convidam ao fluir da existência e resistem, movidas pelo medo de se arriscar. O “ruim conhecido” tem sempre a vantagem de ser conhecido; ele sempre traz o que podemos denominar de “ganho secundário”. O que fazer diante do impasse?


Mudar: A Arte do Desapego
Mudar: A Arte do Desapego

Um primeiro passo é reconhecer em si mesmo a existência de uma parte que não quer mudar. É uma parte que todos apresentam diante do novo, que teme deixar de ter o seu lugar, semelhante à madrasta da Branca de Neve. Ou seja, qual é o novo lugar dela no momento em que a jovem floresce?


Num segundo momento, visualize essa parte sua que teme a mudança e ouça o que ela tem a lhe dizer. Às vezes isso não é tão simples assim. Por exemplo: “É lógico que quero passar no vestibular, mas não consigo estudar”; “É mesmo?”, diz a sua parte que resiste, e continua “E como você vai abrir mão da vida de colegial, sem maiores compromissos?” ou “Como você vai abrir mão do tempo que dedica ao seu lazer, para estudar?”. Perceba que se trata de um convite para dialogar com você mesmo da maneira mais honesta possível e isso pode ser um pouco incômodo; a tendência é ficar cego, surdo e mudo para os verdadeiros motivos, permanecendo no “ruim conhecido”. Mediante esse diálogo, é possível compreender os motivos da “madrasta” e responder a eles de forma mais saudável do que por meio da negação à mudança, da sabotagem ao desenvolvimento.


Responder e tranquilizar “a madrasta” significa que você terá que lançar mão do seu potencial criativo, que talvez tenha deixado esquecido ao longo do dia a dia. Mudar exige a criação de novas formas de continuar a vida, que satisfaçam de forma mais adequada esse novo ser que tanto anseia por “nascer” dentro de você. No exemplo acima, será necessário lançar mão de recursos criativos para encontrar outras formas de continuar sendo filho(a) e divertir-se, sem prejudicar o estudo. O desapego é uma arte, requer criatividade.

Por último, surge o medo de arriscar-se e a pergunta: “E se você cair?”. Que tal responder com outra? “Como seria a sua vida se você tivesse desistido de aprender a caminhar quando caiu, ao dar os seus primeiros passos?”. Pois é: cair também faz parte, mas você sempre terá a possibilidade de levantar. O importante é dar um sentido às quedas, que elas não se tornem uma mera repetição e sim o enriquecimento da sua caixa de ferramentas, para continuar criando a sua trajetória.



Profª Dra. Dafne Suit


Psicóloga Clínica (CRP:03/01380), Gestalt-terapeuta, Sócia fundadora da Comunidade Gestáltica da Bahia

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